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A LEVEZA DA MINHA VIDA

  • Foto do escritor: Damiana Rodrigues
    Damiana Rodrigues
  • 25 de nov. de 2020
  • 3 min de leitura
Por Damiana Cícera

25 de novembro de 2020


Durante toda a minha vida eu convivi com pessoas acumuladoras e até pouco tempo eu também era acumuladora.

Quando eu era criança, minha vida era de escassez: meu pai me abandonou e minha mãe assumiu toda a responsabilidade por minha vida. Ela trabalhava limpando as casas de outras pessoas e ganhava muito pouco – apenas o suficiente para nos alimentar e pagar as contas básicas da casa. Raramente ganhávamos um brinquedo ou uma roupa nova e nossa alimentação era básica, sem os luxos eventuais que outras crianças tinham, mas nunca passamos fome e isso é maravilhoso. Éramos minha mãe, minha irmã e eu. Três mulheres contra o mundo.

Como trabalhava limpando casas, frequentemente minha mãe nos trazia brinquedos usados e sobras de alimentos como pães, biscoitos. Eu sempre senti muita pena de minha mãe e, aos oito anos eu já sabia que queria tirar minha mãe da situação humilhante em que ela vivia, não por trabalhar limpando casas, mas por ser tratada como lixo, ganhar pouco e ser humilhada pelos familiares dela e pela sociedade - por ser mãe solteira. Ela não tinha escolha, trabalhava bem ou doente, afinal, não podia deixar faltar alimento em casa. Minha mãe é a pessoa mais forte e corajosa que eu conheço, porque ela passou por cima de tudo – medo, dor, preconceito, discriminação e abandono – para criar a mim e a minha irmã.

Por levar uma vida de escassez, minha mãe guardava de um tudo, por acreditar que precisaria usar no futuro – seguindo o exemplo de minha avó. Mas eu me tornei acumuladora por outro motivo. Eu via as propagandas de crianças com mochilas, cadernos bonitos, canetas e me sentia triste, porque na época escolar, minha mãe mal podia comprar um caderno básico, e sempre contraía dívidas para comprar nosso material escolar. Logo, coisas básicas que as outras crianças tinham, eu não pudera ter e isso causou um gatilho de necessidade em minha mente, logo, quando eu cresci e comecei a ganhar dinheiro, esse gatilho disparava e eu comprava bolsa, caderno e caneta.

Era um impulso tão forte, que eu via uma bolsa exposta em uma vitrine e pensava o tempo todo nela; sonhava com ela, ansiava tanto por ela que perdia a fome e a alegria; sentia como se minha felicidade dali em diante dependesse de eu ter aquela bolsa. A sensação de necessidade passava no exato momento que eu chegava a casa com o objeto. Isso se repetiu por anos, até eu compreender que eu não precisava de nenhum objeto para ser feliz, que a alegria vem de experiências e não de coisas. Mas foi um longo e difícil processo até eu me libertar do gatilho de consumir bolsas, cadernos e canetas.

Sempre que eu tinha uma ideia, despertava a ideia de que para eu dar início a ela, precisaria de um novo caderno para escrever sobre ela, e era justamente isso que eu fazia: comprava um caderno. Já cheguei a ter vinte cadernos de todos os tamanhos e formas ao mesmo tempo. Acho que nem uma traça em toda a sua vida, destruiu mais papel que eu.

Quanto mais eu comprava, mais me sentia vazia, então, eu comecei a ver vídeos sobre minimalismo no YouTube e percebi que era o que eu precisava na minha vida. Então, fui observando o que era essencial ou não em minha vida, reduzi o consumo de tudo, eliminei os excessos e me tornei mais consciente de mim mesma, até chegar ao padrão que estou hoje, em que tudo o que eu tenho na vida é essencial e em que eu não preciso comprar nada para me sentir bem. Acredito que eu me libertei de uma prisão que minha mente criou, e, apesar de outras coisas que me assolam, o consumismo não ocupa mais espaço em minha vida.

Eu tenho quantidade suficiente de roupas, calçados, cosméticos, bijuterias, bolsas, cadernos, canetas, enfim, não me sinto pressionada para usar tudo o que eu tenho, nem asfixiada pelo excesso de coisas em minha casa, eu vivo tranquila. Prefiro ter experiências a ter coisas, porque as experiências alimentam nossa alma, mas as coisas consomem nosso dinheiro e energia, além de demandarem espaço e manutenção.

Não faço críticas a quem tem muitos pertences, porque cada um sabe o que é melhor e significativo para si mesmo, mas, no meu caso, o consumismo estava consumindo minha energia e meu dinheiro e quando eu me libertei dele, pude prestar atenção em mim mesma, que é o mais importante. Eu escolhi viver uma vida simples, porque sei que minha vida é curta de mais para eu gastar meu tempo comprando e cuidando de objetos, quando eu deveria estar vivendo e tendo bons momentos e boas experiências. E você? Você é consumista ou leva uma vida simples e significativa?

 
 
 

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